Luís de Matos

[ Advisory Board Member at LUSOFLY ]

Uma parte significativa da “população ativa” do mundo ainda tem insuficiente literacia científico-tecnológica, tornando-se-lhe mais difícil perceber os riscos (e as oportunidades) deste novo “Mundo 4.0”, “5.0”, ou que lhe quisermos chamar, em que já estamos profundamente mergulhados. É imperioso e urgente investir na sua formação e desenvolvimento.

O, então, Presidente do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira, no seu artigo “Iliteracia tecnológica, o novo analfabetismo”, faz uma lúcida análise do tema. Reproduz-se aqui um excerto absolutamente marcante e elucidativo…

“… No final do século XX, quem não sabia ler e escrever estava, na prática, impedido de cumprir plenamente o seu papel de cidadão, por estar privado do acesso à informação e de uma forma adequada de manifestar publicamente as suas opiniões. No século XXI, quem não dominar minimamente as questões tecnológicas estará, de forma similar, impedido de desempenhar plenamente o seu papel na sociedade, por estar limitado na sua compreensão das complexas questões económicas, éticas e sociais que as tecnologias modernas colocam…”

Debrucemo-nos, a título de exemplo, sobre os cada vez mais difundidos sistemas de “Inteligência Artificial”… Hoje, dificilmente se consegue explicar clara e exactamente o funcionamento dos seus mais modernos e poderosos algoritmos. Os sistemas são tão complexos que, mesmo os matemáticos e engenheiros que os concebem e desenvolvem, se revelam incapazes de isolar a razão por detrás de uma determinada acção. Até há pouco, os modelos matemáticos utilizados em diversos campos, da advocacia à saúde, passando pela banca, pelos mercados mobiliários, pela área militar e até pelo recrutamento, tinham nas suas “regras” algum “determinismo”. Pelo menos teoricamente, conseguia-se perceber e explicar com alguma precisão o seu funcionamento. Nos dias que correm, as evoluídas abordagens de “Machine Learning”, em que os algoritmos podem ser reescritos pela própria máquina, em função dos dados disponíveis e dos resultados desejáveis, tornam virtualmente impossível “perceber porque aconteceu o que aconteceu” e porque foi tomada aquela decisão.

Parafraseando Tommi Jaakkola, do MIT…

“… Este é já um problema importante, que se vai tornar ainda mais crítico no futuro. É que, quer estejamos a falar de decisões de investimento ou de justiça, de decisões médicas ou militares, não podemos ficar apenas dependentes de ‘caixas negras’ que não sabemos como funcionam!…”

Como se não bastasse a crescente complexidade dos algoritmos, o caso torna-se ainda mais dramático se pensarmos que estes sistemas aprendem com os dados que lhe são fornecidos. Se estes dados estiverem “enviesados”, eles aprendem e geram conhecimento de forma “enviesada”…, e tomam decisões de forma “enviesada”!

Com a proliferação de sistemas de “Inteligência Artificial” em aplicações que, cada vez mais, estão presentes em todos os aspectos das nossas vidas, estes temas da crescente complexidade e do possível “enviesamento” não detectado pode tornar-se dramático. No entanto, a população em geral, por desconhecimento, não está minimamente alerta para o assunto. Só que não há como continuar a ignorá-lo.

Parafraseando Jeff Bezos, da Amazon…

“… A década de 2010 ficará marcada pelas redes sociais. A década de 2020, pela Inteligência Artificial…”

Felizmente, o tema começa a estar na ordem do dia, considerando-se mesmo que é um direito legal fundamental, perceber-se como e porquê um qualquer sistema de “Inteligência Artificial” chegou a uma determinada conclusão.

Tudo isto é apenas um exemplo concreto dos riscos do analfabetismo científico-tecnológico ainda vigente. Como se referiu no início deste artigo, uma parte significativa da “população ativa” do mundo ainda não tem suficiente literacia científico-tecnológica. Para além de ter dificuldade em perceber estes temas, o seu funcionamento e o seu impacto, em muitos casos, essa população não desenvolveu sequer qualquer “sensibilidade” para estar alerta para os riscos e oportunidades deste novo mundo. Os aspectos ligados à ciência e à tecnologia, pura e simplesmente, pouco ou nada lhe dizem.

Esta situação, contudo, não nos apanha de surpresa. Note-se que a última grande onda de desejo de aprender temas científico-tecnológicos, esteve ancorada ao Programa Espacial Americano. Todos queríamos ser astronautas e engenheiros! Hoje, essa geração “técnica”, ou está no final da sua vida de trabalho…, ou já nem está entre nós. Com o fim do “élan” do programa, quase toda a juventude enveredou por outras áreas de estudo, o que provocou o enorme desequilíbrio de conhecimentos de que a humanidade padece actualmente. Há que, rapidamente, desenvolver e aplicar formação que colmate este gap de conhecimentos.

Saliente-se que esta formação em falta não tem, necessariamente, de ser assegurada apenas pelo ensino superior, ou pelas escolas. O sector empresarial pode fazer a diferença, apostando na formação e desenvolvimento da base de conhecimentos científicos e tecnológicos dos seus colaboradores. Não apenas daqueles que, pelas funções, lidam diariamente com estes temas, mas de todos os colaboradores…, incluindo os vários níveis de gestão. É uma questão de sobrevivência. As organizações, para se manterem competitivas, têm de garantir que os seus colaboradores evidenciam um crescente domínio das ciências, da tecnologia, da engenharia e da matemática. Longe vão os tempos em que, sem grande risco, se podia assumir que a tecnologia dava suporte ao negócio. Hoje, a tecnologia é o verdadeiro “driver” do negócio!

São as empresas que, decisivamente, podem incrementar o nível médio de literacia científico- tecnológica base de toda a população activa, como acção imediata e sustentada de elevação do nível de conhecimento e alerta para os desafios desta era do “digital”. Com as necessárias adaptações às suas realidades concretas, o desenho de programas formativos de explicação destes temas e sua articulação e impacto no negócio, a serem frequentados pelos colaboradores sem conhecimentos nestas áreas, incluindo os diferentes níveis de gestão, faria toda a diferença. Os conteúdos destes programas, claro, seriam actualizados com a periodicidade necessária, por forma a reflectirem o rápido avanço da tecnologia.

A título ilustrativo, refira-se o caso do banco Capital One Financial Corporation (presente no índice “Fortune 500”), com um programa intensivo de formação avançada em diversos temas científico-tecnológicos, abrangendo todos os seus colaboradores. Referência deste sempre na formação empresarial, com ofertas formativas estruturadas em mais de duas centenas e meia de cursos, com este novo programa, que tira partido das actuais ferramentas tecnológicas de aprendizagem, o banco disponibiliza todo um leque de cursos científico-tecnológicos abrangendo, inicialmente, seis tópicos fundamentais:

            . “Inteligência Artificial” e “Machine Learning”;

            . Cibersegurança e ciberdefesa;

. Engenharia de software;

            . Computação na “cloud”;

. “Big data”;

            . Tecnologias “mobile”.

… começando, nem a propósito, pela “Inteligência Artificial” e pela cibersegurança. Mais cursos, cobrindo outros tópicos científicos e tecnológicos, são adicionados dinamicamente.

Para além do desenvolvimento dos 50.000 colaboradores do banco em temas fundamentais para o negócio, potenciando a sua produtividade e motivação, o programa é também um forte atractor de “Top Talent” a nível mundial. Tanto no meio empresarial, como no meio académico.

Mas se as empresas podem ter um papel preponderante junto dos seus colaboradores, cruciais também, serão as iniciativas empresariais junto das escolas, divulgando, promovendo e dando suporte a ações estruturadas que visem atrair os jovens para os estudos de temas científico- tecnológicos. Uma inteligente rede de parcerias entre escolas e empresas permitiria incrementar profundamente a atractividade destas áreas para todo o universo estudantil, desde os bancos da escola, como base para a construção de uma “onda geracional” de pessoas devidamente preparadas para estes novos desafios.

Quem sabe, se a nova onda de programas espaciais, com a mediática “colonização de Marte” no horizonte próximo, não consegue contribuir fortemente para dar a “ignição” de todo este necessário movimento.

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