A CULTURA DO PROPÓSITO COMO UM DIFERENCIAL COMPETITIVO

Hoje venho trazer à mesa um assunto que considero relevante tanto na vertente da gestão do capital humano quanto na vertente organizacional, a importância de trabalhar com um propósito organizacional, cada uma destas vertentes está interligada entre si.

Ao ingressarmos para o mercado de trabalho a maior satisfação é alinhar os objectivos pessoais aos objectivos organizacionais, mas ao falarmos de propósito estamos a caminhar para algo mais profundo, pois não se trata apenas de objectivos e metas, mas sim, da essência do negócio.

Nesta senda, devemos nos questionar sobre o nosso propósito pessoal em primeira instância, qual o sentido do significado desta palavra para nós? Tentar perceber qual o nosso propósito de facto, caso não o tenhamos encontrado? É defendido por vários autores e estudiosos que, todo o ser humano possui um propósito, porém, muitos de nós na passagem pela terra não chegamos a conhecê-lo. Daí também defender-se que devemos ir em busca do nosso propósito, para que sintamos a razão da nossa existência e, fazer com que nos sintamos actuantes e capazes de colaborar em prol de um mundo melhor, encontrando uma conexão com o trabalho mais do que simplesmente sermos bem sucedidos e reconhecidos pelos nossos feitos.

O escritor Viktor Frankl, no seu livro “O sentido da vida[, relata que esta reside em encontrar um propósito, em assumir uma responsabilidade para com o próprio ser humano e, tendo claro um “porquê” poderemos enfrentar todos os “como”, apenas nos sentindo livres e seguros do objectivo que nos motiva sermos capazes de gerar mudanças, para criar uma realidade muito mais nobre.

O coach Sérgio Chaia, define o propósito como a forma pela qual você quer ser lembrado e, isto envolve os nossos talentos e os dons com os quais nascemos. Definidos estes elementos, podemos pensar em como os colocar ao serviço de pessoas que necessitem e ao serviço da humanidade como parte da nossa rotina.

Deste modo, o propósito organizacional é fonte de valor para os colaboradores e para o negócio e, este sintetiza a razão de existir das empresas, descrevendo como a marca contribui para o mundo. Assim, esta acção faz os membros da organização sentirem-se orgulhosos de serem parte integrante da instituição e o facto de poderem colaborar para a mesma. Isto gera um enorme impacto nas pessoas, pois falar de propósito é falar de algo que transcende os nossos objectivos a fim de deixar um legado ou uma marca de valor como já referido, ainda que os referidos objectivos mudem o propósito sempre se manterá vivo.

É comum hoje em dia, os profissionais na busca de novos desafios serem movidos pelo propósito, por este criar identidade por valor. Estes profissionais por muito que estejam engajados na conquista de bons salários e benefícios eles querem muito mais do que isso, querem impactar vidas, daí a busca de empresas que se identificam com o seu propósito.

Trabalhar em lugares sem propósito, é o mesmo que trabalhar sem se saber a essência da existência da empresa e o motivo que leva esta a fazer a diferença no mercado de trabalho ou mesmo no mundo. Sem propósito não há como as empresas exigirem um excelente desempenho dos seus colaboradores, pois o que os motiva é a vontade de transformar e contribuir para uma sociedade melhor.

Na definição do propósito organizacional e incorporação na cultura da empresa, devemos pensar nos seguintes critérios – reforço da cultura da empresa; captura e definição da contribuição do negócio para a sociedade; traduzir a razão da sua existência; ser inspirador o suficiente para unir esforços e incentivar a acção; ser uma fonte de significado para os colaboradores e ser fácil de lembrar e dizer.

Deste modo, existem inúmeras ferramentas no mercado que ajudam os Líderes e empresas a encontrarem o propósito e gerar impacto no mercado de trabalho. Uma destas ferramentas e a única a referenciar neste artigo, é a “Golden Circle”, uma verdadeira estrutura de comunicação criada pelo inglês, Simon Sinek, a mesma possui três níveis a serem analisados – o que fazemos? Como fazemos? E porquê que f?  

Ao se aplicar a ferramenta as empresas oferecem mais do que produtos, serviços e preço, passam a oferecer um propósito que se transformará num legado, é uma das inúmeras vantagens. O autor refere que – “as pessoas não compram o que você faz, elas compram o porquê você faz. Aquilo que você entrega é só uma prova da autenticidade do seu propósito.

Exemplo de um “Golden Circle:”

Todas as empresas sabem dizer o que fazem, isto tem a ver com os seus produtos e serviços, algumas empresas sabem explicar como fazem, isto tem a ver com o método ou processo usado na concepção dos produtos ou serviços, mas raras são as empresas que sabem comunicar o porquê fazem[ , por se tratar exactamente do propósito, algo que a empresa acredita de verdade. Por exemplo, o “porquê da empresa existir?”, “O que o mundo ganha com a existência desta empresa?” O evangelista do empreendedorismo e autor de várias obras, Guy Kawasaki, num dos seus 10 mandamentos refere o seguinte – ofereça sentido e não dinheiro – este diz que o empreendedor deve-se preocupar em fazer com que o seu produto ou serviço signifique algo mais do que a soma dos seus componentes e do dinheiro que poderá vir a ganhar.

Desta forma, é de extrema importância as organizações trabalharem com propósito, o Autor Alexandre Teixeira, no seu livro “De dentro para fora” [(Arquipélago Editorial, 2016), resumidamente, mostra que o dinheiro não pode ser a motivação principal do colaborador, pelo contrário, a razão de um trabalho deve ser embasada num propósito, para que hajam mecanismos impulsionadores sobre a satisfação e, para que esta conduza a excelentes resultados.

É comum o propósito ser confundido com a missão, visão e valores da empresa, mas esse conceito vai muito além do que conseguimos observar, este une equipas em prol de uma filosofia interna, em [outras palavras seria conectar todos os corações e mentes dos colaboradores levando-os a uma mobilização para que se atinja um determinado ponto.

Quando existe um propósito organizacional, verificamos inúmeras vantagens dentro da empresa, como: partilha de ideias; aumento da produtividade; engajamento; trabalho em equipa; fortalecimento da confiança institucional, entre outros aspectos não menos importantes que criam conexão entre o trabalho, trabalhadores e organização. E a grande verdade é que uma empresa sem propósito organizacional, apenas gere profissionais e recursos, já as que o têm mobilizam profissionais e recursos.

O propósito pessoal e profissional, acabam por estar interligados, pelo facto das pessoas buscarem o seu bem-estar no trabalho. Para os gestores de capital humano, este é um tema de grande relevância, pois estes profissionais estão sempre empenhados na busca do aumento da produtividade, comprometimento e motivação das equipas e, quando existe uma convergência entre os dois conceitos os resultados passam a ser positivos para as pessoas, para as organizações e para a sociedade.

Ao definir o propósito na organização, este deve ser de forma clara e, deve ser conectado aos propósitos das áreas e consequentemente aos dos indivíduos, por meio de jornadas de aprendizado workshops, acções de formação voltadas para a cultura da empresa, entre outras formas que auxiliem os colaboradores a se conectarem ao propósito da empresa e encontrarem mais significado nas suas atividades diárias.

Nesta senda, as lideranças têm um grande papel nesta questão do propósito organizacional, como o de mostrar e estimular a encontrar o propósito do trabalho dos seus liderados, mas para que estes propósitos estejam claros devemos saber onde queremos chegar e sobretudo dispor da energia necessária para enfrentar a trajectória proposta, só desta forma o Líder conseguira alinhar os valores pessoais dos liderados aos da organização.

Em jeito de conclusão, trago uma questão para os gestores de capital humano – já se perguntaram se o propósito da vossa empresa é inspirador o suficiente para motivar os seus colaboradores? A tendência é que cada vez mais as pessoas e as empresas colocarem em primeiro lugar o seu bem-estar como já foi referido e, nesta busca pelo propósito de vida, por aquilo que faz os seus olhos brilharem, as empresas deixam de tratar os colaboradores apenas como números e passam a vê-los como pessoas reais, com necessidades, sentimentos e emoções. Pois ao fazermos com propósito qualquer coisa que seja, os resultados são muito melhores, tanto no sentido palpável da coisa quanto na satisfação pessoal.

Deste modo, as organizações que têm propósito, o maior desafio é unir este desígnio ao sentido individual do trabalho executado e, para que isto aconteça é necessário a implementação de estratégias bem definidas e direccionadas. A cultura do propósito aumenta o engajamento] do consumidor com a marca/organização e o alinhamento dos interesses com os diferentes “stakeholders.”

Assim, devemos ter sempre em mente, a seguinte premissa – “se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável.” – Sêneca.

REFERENCIAL TÉORICO:

  • Souzanne Dupont – 2 de Outubro de 2020;
  • Ricardo Cantini – 18 Outubro de 2018;
  • Victor Frankl – o sentido da vida;
  • Karin Keller – Golden Circle – 14 de Julho de 2017;
  • Adriano Couto – O poder da conexão aos propósitos;
  • Rosangela Souza – 19 de Dezembro de 2017;
  • Kiko Campos – Julho de 2020.

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